Loop de Loriga

Backpacking na Serra da Estrela

Loop de Loriga

três dias de liberdade na Serra da Estrela

O Loop de Loriga é uma rota circular de 3 dias e 2 noites em total autonomia, pensada para caminhantes experientes que queiram mergulhar na essência selvagem da Serra da Estrela. Começando e terminando na pitoresca aldeia de Loriga, este percurso leva-te por alguns dos cenários mais impressionantes da montanha mais alta de Portugal continental.

Desde a dramática Garganta de Loriga ao imenso Planalto Superior com passagem pelo Alto da Torre, passando pelo desafiante trilho do Quilómetro Vertical até às águas frescas das ribeiras de Alvoco e Loriga, esta rota é uma celebração da natureza, da resistência e da liberdade.

Com inúmeros pontos de água, lagoas e cascatas, é perfeita para o Verão — desde que planeada com atenção às horas de maior calor.

⚠️ Esta rota é exigente física e tecnicamente, ideal para quem já tem experiência em montanha ou está acompanhado por quem a tenha. Bivaque sob as estrelas, cozinha de campismo e navegação por GPS fazem parte da aventura.

Vê o track no Ride With GPS

Pela Garganta de Loriga

De mochila às costas e bastões ajustados, depois de um café acompanhado por uma fatia de Bolo Negro de Loriga, é hora de pôr os pés ao caminho.

O Loop de Loriga começa no coração desta vila de montanha e, antes de deixarmos para trás os últimos sinais de civilização, seguimos por entre as suas ruas estreitas e inclinadas. Ainda nem pisámos o trilho e já temos uma antevisão do que nos espera!

Da vila até ao Alto da Torre são cerca de 11 km sempre a subir, com mais de 1200 metros de desnível acumulado — uma verdadeira prova de resistência. Mas a exigência do percurso é compensada, e em muito, pela imponência da Garganta de Loriga, um dos mais impressionantes vales glaciários da Serra da Estrela.

Terminado o asfalto, as primeiras rampas são de tirar o fôlego: o corpo ainda se está a habituar ao peso da mochila e as elevadas pendentes iniciais não facilitam a progressão. Valham-nos os bastões para dar aquela tracção extra no areão grosseiro que teima em nos resvalar por baixo dos pés.

À medida que ganhamos altitude, a paisagem transforma-se. Numa curva do caminho, o vale glaciário revela-se em toda a sua grandiosidade — aquele perfil em “U” perfeito, moldado pelo gelo há milénios. Lá em baixo, a ribeira da Nave corre aos tropeções, saltando de pedra em pedra e formando cascatas sucessivas que ecoam pela encosta.

O trilho, agora claramente de montanha, segue assinalado por mariolas e marcas amarelas e vermelhas (PR5 SEI – Rota da Garganta de Loriga), guiando-nos encosta acima. A cada passo, os grandes blocos de granito abandonados pelo glaciar fazem-nos recuar no tempo e imaginar o que seria caminhar por aqui há 20 mil anos.

Loop de Loriga - Perfil em U da Garganta de Loriga
Loop de Loriga - Pastor no Covão da Areia
Loop de Loriga - paisagem de socalcos
Loop de Loriga - Trutas take-away
Loop de Loriga - Poço de Broca

Os Covões da Garganta de Loriga

A meio da subida pela Garganta de Loriga, chegamos ao primeiro grande “degrau” deste vale glaciário monumental: o Covão da Areia, situado a cerca de 1480 metros de altitude. Encravado entre escarpas e atravessado pelas águas cristalinas da ribeira da Nave, este é um excelente local para fazer uma pausa — ou mesmo para montar o abrigo e pernoitar, caso tenhas começado a caminhada a meio do dia. Há uma nascente discreta entre os blocos de granito, ideal para reabastecer os cantis. O terreno é relativamente plano e abrigado, perfeito para uma noite tranquila sob as estrelas, especialmente em dias sem vento.

Continuando a subida, alcançamos o Covão da Nave, a cerca de 1560 metros de altitude. Tal como o anterior, este patamar é tradicionalmente usado para pastorear o gado e é frequente encontrar por aqui pastores com rebanhos de cabras. Um conselho útil: aproxima-te com calma e evita surpreender os cães da Serra da Estrela, que costumam ser bastante protectores do rebanho.

Ao fundo do vale, surge a barragem do Covão do Meio, destacando-se entre o cinza dos blocos de granito e o verde do cervum. O trilho segue nessa direção, quase sempre bem sinalizado. O percurso até lá não apresenta grande dificuldade técnica, mas em alguns pontos exige o uso das mãos para ultrapassar blocos maiores. Com rocha molhada, o granito polido pela erosão glacial pode tornar-se surpreendentemente escorregadio — cuidado redobrado é essencial.

A barragem do Covão do Meio faz parte do sistema de produção hidrelétrica da Serra da Estrela, mas não é neste vale que a electricidade é produzida. Em vez disso, as águas são encaminhadas por um longo túnel que fura a montanha e vai desembocar na Lagoa Comprida. Durante o Verão, as comportas da barragem ficam abertas para deixar passar livremente toda a água que irá alimentar a ribeira de Loriga e as levadas que regam os seus lameiros, por isso não estranhem se se depararem com a barragem totalmente vazia.

O nosso caminho contorna agora a barragem, seguindo meio por veredas, meio por degraus de cimento e já se sente a proximidade ao topo da Serra. O antigo caminho de acesso à barragem, bastante degradado, complica a progressão, mas rapidamente chegamos ao Covão do Boeiro.

Ao passar o Covão do Boeiro, o GPS encaminha-nos para fora do caminho: daqui até ao Alto da Torre seguiremos pela antiga rota T1 do Parque Natural. Caída no esquecimento, as marcações desta rota há muito que se perderam, mas seguindo a linha do GPS e as mariolas não é complicado encontrar o melhor caminho.

 

🧭 Aprende tudo sobre caminhadas em autonomia: lê aqui o meu guia para backpacking!

O Planalto Superior

Ao chegarmos ao Planalto Superior, a passagem da Lagoa do Covão das Quelhas faz-se por cima do pequeno muro da represa, mesmo quando a água corre por cima do muro (espero que se tenham lembrado de trazer botas impermeáveis!).

Ali logo ao lado, ficam mais duas lagoas: a Lagoa Serrano e a Lagoa da Francelha. Se o dia já vier longo e as pernas já cansadas, a Lagoa da Francelha (por ser mais afastada e discreta) poderá ser um bom spot para assentar arraial e ficar para a noite. Aqui por perto, a única opção de alojamento é a Casa Abrigo do Clube Nacional de Montanhismo (junto à estância de ski), mas que apenas funciona para grupos e com reserva prévia. Se, no entanto, ainda estiverem frescos e com vontade de continuar caminho, a rota segue agora em direcção ao Alto da Torre.

O Alto da Torre, apesar do óbvio simbolismo de ser o ponto mais elevado da Estrela e de Portugal continental, não é para mim (e para muitos outros) um ponto de passagem assim tão agradável. A degradação do local é por demais evidente e os comportamentos menos sensíveis de muitos visitantes contribuem para que normalmente eu evite passar por lá ou não me demore e siga caminho.

Loop de Loriga - Garganta de Loriga
Loop de Loriga - rebanho de cabras
Loop de Loriga - Vista para a Serra do Açor
Loop de Loriga - Barragem do Covão do Meio
Loop de Loriga - Cão da Serra da Estrela

A descida do Quilómetro Vertical

Quando chegamos à beirinha do planalto e olhamos para baixo, até ficamos com dúvidas se o caminho é mesmo por ali. Mas é! Espera-nos uma (muito) longa descida até chegarmos a Alvoco da Serra.

Desde o limite do planalto (a cerca de 1900 metros) até chegarmos a Alvoco da Serra iremos descer qualquer coisa como 1.100 metros de altitude ao longo de 5 km. Coisa simpática para os joelhos, portanto.

Hoje em dia este trilho é muito procurado por trailrunners, sendo uma das grandes dificuldades dos eventos de trail que são regularmente organizados na Estrela, mas outrora era por aqui que os pastores traziam o gado transumante à procura dos pastos mais frescos durante os meses de Verão.

Além disso, também este troço do Loop de Loriga é coincidente com um dos percursos de Pequena Rota das Aldeias de Montanha (PR14 SEI – Rota do Pastoreio) e encontra-se devidamente sinalizado com as tais marcas pintadas a vermelho e amarelo.

A descida é praticamente sempre a direito, seguindo a linha de cumeada de um dos contrafortes da Serra da Estrela. À nossa direita corre o Vale Glaciário de Alvoco, mais um dos que há 20 mil anos estaria coberto de neve e gelo.

Ao chegarmos à base da encosta, onde as várias linhas de água que irão formar a ribeira de Alvoco se unem, o nosso caminho passa a ser entre muros de pedra. Estes caminhos, chamados “canadas”, eram uma espécie de rede viária para facilitar a condução dos rebanhos e evitar que as cabras e ovelhas devorassem os campos de cultivo dos vizinhos.

Ainda em descida, mas bem mais suave que lá atrás, as canadas conduzem-nos agora a nós até à aldeia de Alvoco da Serra. De regresso à civilização, aproveitemos para fazer uma pausa e reabastecer mantimentos. As opções não são muitas, mas existe café, mercearia e até alojamento local.

pela Ribeira de Alvoco

Depois de Alvoco da Serra, seguimos ribeira abaixo. A partir de agora, o cenário à nossa volta será totalmente diferente e a montanha será apenas pano de fundo.

O nosso caminho segue agora a meia encosta, em suave descida e a acompanhar as águas da ribeira. A orientação aqui é mais fácil do que lá em cima na montanha, mas o caminho continua sinalizado pelas marcações pintadas a amarelo e vermelho (PR13 SEI – Rota da Ribeira de Alvoco).

Junto à aldeia de Vasco Esteves de Baixo, a praia fluvial do Poço do Lagar convida a um curto desvio para meter os pés de molho. Durante o Verão existe um bar onde dá para beber e comer qualquer coisa, mas a relva está lá todo o ano para fazer uma pausa e dormir a sesta.

Trutas e Poços de Broca

E em “poços de broca”, já ouviram falar? Provavelmente até já viram fotos das cascatas que abundam aqui na zona, mas o que pouca gente sabe é que foram criadas artificialmente. À falta de terrenos férteis e aptos para cultivo, há coisa de 200 anos, o engenho das gentes locais aproveitou os meandros naturais da ribeira para desviar as suas águas e criar “braços mortos” na ribeira, criando amplas zonas de grande fertilidade para fazer as suas hortas. E as cascatas que hoje são tão procuradas, são o resultado desse atalho artificial no curso das ribeiras.

Perto da aldeia do Aguincho, o caminho passa precisamente junto a um viveiro de trutas que foi construído num desses braços “mortos” criados pelo desvio das águas da ribeira. Logo ali ao lado há também uma cascata, mas o melhor desse spot é mesmo o restaurante do viveiro, onde podemos comer trutas fresquíssimas e acabadas de apanhar.

Depois do Aguincho ainda vamos passar por mais uns quantos poços de broca: o de Frádigas, o da Barriosa, o do Muro, o de Serapitel… mas a isso já lá chegaremos.

Provavelmente, ao chegarem por esta zona, o dia já deverá ir longo e poderá ser boa ideia começar a procurar lugar para assentar para a noite. Nas várzeas junto à ribeira há bons sítios para bivacar, com chão mais regular e com água por perto. Em alternativa ao bivaque, existe opção de alojamento local na aldeia do Aguincho.

Pela vereda da levada

Depois de passarmos pela aldeia do Aguincho, o nosso caminho passa a seguir em boa parte pelas veredas que acompanham as levadas.

Antigamente, as levadas eram a única forma de conseguir regar hortas e lameiros, desviando as águas da ribeira a montante para ir regando os terrenos mais à frente. Hoje em dia, muitas dessas levadas ainda continuam a uso, mas as veredas que as acompanham passaram também a ser usadas como trilhos pedestres.

O troço de levada entre Frádigas e a Barriosa é um dos mais sketchy de toda a rota. A vereda que acompanha e levada é estreita e irregular, muitas vezes tomada pela vegetação que vai crescendo pelo reduzido uso da rota, mas são alguns pedacitos mais expostos ao vazio que podem meter mais respeito a quem tenha mais vertigens. Recomenda-se um cuidado extra para ver onde vamos metendo os pés.

Os poços de broca de Frádigas e da Barriosa convidam também a uma pausa. O poço de Frádigas é menos conhecido e por isso podemos desfrutar do local em sossego quase garantido. No poço da Barriosa, dificilmente vamos ter esse sossego, mas podemos aproveitar para almoçar sentado à mesa ou para beber uma fresquinha com os pés de molho.

Loop de Loriga - Garganta de Loriga
Loop de Loriga - Vista para os cumes na Garganta de Loriga
Loop de Loriga - Marcas Pequena Rota
Loop de Loriga - Caminhante nas Levadas de Loriga
Paisagem de socalcos no Loop de Loriga

Pela Ribeira de Loriga

Depois da Barriosa, saltamos a cumeada e aterramos directamente na ribeira de Loriga. Daqui até ao final do nosso loop seguiremos contra-corrente pelo vale acima. Para não variar, o nosso caminho continua sinalizado com as tais marcações pintadas a amarelo e vermelho (PR2 SEI – Rota da Ribeira de Loriga), mas a estas marcações junta-se temporariamente a risca branca que assinala a coincidência com a GR22 – Grande Rota das Aldeias Históricas.

A primeira aldeia chama-se Muro. O nome não virá daí, mas o caminho que liga a ribeira ao centro da aldeia é uma autêntica parede. Talvez não seja má ideia ir refrescar a alma na pequena praia fluvial ao atravessarmos a ribeira.

A próxima aldeia é o Casal do Rei, sem dúvida uma das pérolas das Aldeias de Montanha. Entre o Muro e o Casal do Rei, a vereda da antiga levada já deixou de ser transitável há um tempinho e (enquanto não for devidamente reparada) é preciso seguir caminho pela estrada.

Mas em Casal do Rei, não são só as casas de paredes e telhados de xisto que merecem destaque. É que no outro lado da ribeira, na encosta em frente à aldeia, estende-se a Reserva Botânica do Bosque de Casal do Rei, um bosque reliquial onde ainda podemos encontrar uma pequena amostra do que seria a vegetação natural da região Centro, antes de ter sido devastada pelo pinheiro e pelo eucalipto. Entre as mais de 200 espécies de plantas que lá existem, o natural destaque vai para o Azereiro, que ali vai sendo acompanhado por Azinheiras, Medronheiros, Castanheiros e Folhados.

Seguindo caminho pela levada, em pouco tempo estaremos aos pés da aldeia de Cabeça. A aldeia fica lá em cima, mas a pausa no Poço da Ponte é obrigatória, seja para um mergulho ou apenas para respirar a calma daquele lugar.

O regresso a Loriga

Loriga já fica quase ao virar da esquina. Depois da pausa em Cabeça para conhecer a “primeira aldeia LED de Portugal” (yap, é mesmo verdade: desde 2011 que toda a iluminação pública de Cabeça passou a ser em LED!), lá teremos que meter a mochila às costas e continuar o nosso caminho.

Até chegarmos perto do poço de broca do Serapitel o nosso caminho ainda será pelas veredas que acompanham a levada. Para visitar este poço é preciso sair do trilho sinalizado e seguir mais um pouco pela levada.

Com o fim das levadas, os trilhos esquecem-se do que é uma curva de nível e voltam a subir à bruta pela encosta acima. Mas, cruzada a cumeada, somos brindados com o magnífico cenário de postal que envolve Loriga.

Agora sim, Loriga já fica ali ao virar da esquina, mas o mar de socalcos ainda convida a uma pausa para respirar e contemplar. E depois, é só subirmos até ao centro de Loriga para terminar este loop de 3 dias com a mochila às costas!

separador beira castanho

Dicas úteis

Como chegar: para chegar a Loriga é possível usar a Rede Expresso. As opções de horário são reduzidas, mas (quando possível) é sempre melhor usar os transportes públicos que levar o carro.

Onde dormir: não faltam opções de alojamento em Loriga, desde camaratas em hostel até alugar uma casa completa para a família inteira. Durante a rota, para além da opção de bivaque, as opções de alojamento são limitadas, mas é possível percorrer a rota pernoitando apenas em alojamentos. Junto à Estância de Ski (perto da Torre) existe a Casa Abrigo do Clube Nacional de Montanhismo, mas é mais indicada para grupos (aluguer da casa inteira) e é necessário reserva prévia. Entre Alvoco da Serra e Loriga existem algumas opções de alojamento local.

Onde comer: em Loriga existem várias opções de restaurante ou mercearias para abastecer de mantimentos para os dias seguintes, mas se tiverem necessidades específicas pode ser preferível fazer as vossas compras antecipadamente. Ao longo do Loop de Loriga, é possível encontrar cafés ou mercearias em quase todas as aldeias. As melhores opções de restaurante ao longo da rota são o Viveiro das Trutas (podem levar trutas take-away!) ou o Guarda-Rios, junto ao Poço de Broca da Barriosa.

Previsões meteorológicas locais: para além das previsões oficiais do IPMA, existem vários projectos locais de meteorologistas amadores, mas que têm um conhecimento do território que lhes permite ser muitas vezes mais assertivos. Destaco as previsões do Vitor Baia e o projecto MeteoEstrela.

Água: dependendo da época do ano, a minha recomendação será levar convosco um mínimo de 1 a 1,5L durante o dia. Se forem pernoitar longe de algum ponto de água, será recomendado ter convosco 2,5 a 3L para cozinhar, beber durante a noite e para as primeira parte da caminhada no dia seguinte. Na Garganta de Loriga existe uma nascente no Covão da Areia, mas podem sempre filtrar água da ribeira. No Planalto Superior poderão filtrar água das lagoas ou abastecer na Torre. Durante o resto da rota terão sempre aldeias, a ribeira ou levadas por perto. Todas as águas que sejam captadas à superfície devem ser tratadas com uso de filtro, pastilhas desinfectantes ou fervendo a água.

Rede de telecomunicações: durante uma parte significativa da rota não existe rede de telemóvel.

Contacto de emergência: para além dos normais serviços de emergência, na Serra da Estrela existe uma equipa especializada em situações de busca e resgate pertencente à GNR UEPS – Unidade de Emergência de Proteção e Socorro. O contacto poderá passar pelo 112 ou pelo número disponibilizado no site da GNR: 275 320 660 (Posto de Busca de Resgate em Montanha da Serra da Estrela – Covilhã).

Outros sites com informações do território:

Visit Seia | Aldeias de Montanha | Estrela Geopark

separador beira castanho

Atenção!

Os trilhos de montanha são naturalmente irregulares e exigem boa condição física e destreza para ultrapassar obstáculos. Podem existir obstáculos que impliquem trepar ou destrepar com ajuda das mãos, passagens expostas e com risco de queda, linhas de água que podem ser complicadas (ou impossíveis) de ultrapassar após períodos de chuva intensa ou durante o degelo, partes do trilho cobertas de gelo ou neve… Ou seja, o normal na montanha para quem está habituado a estas coisas, mas um cenário de grande risco para quem não faça ideia onde se vai meter.

Também é fundamental ter bons conhecimentos de orientação em terreno de montanha ou, pelo menos, ir acompanhado por alguém capaz de guiar a caminhada. Muitos dos trilhos da Serra da Estrela pecam por falta de gestão/manutenção adequada, sendo a sinalização dos trilhos muitas vezes de fraca qualidade ou inexistente. Nestes trilhos mais remotos e menos percorridos, a orientação é ainda dificultada pelo pela vegetação que ocupa os trilhos, pela falta de manutenção e pelo pouco uso dos trilhos. 

Acampada livre em Portugal

A legislação portuguesa não permite, de forma geral, acampar fora dos locais regulamentados (DL n.º 310/2002, de 18 de Dezembro). Esta lei é proibitiva de forma cega e, mesmo em terrenos privados e com autorização do proprietário, apenas se pode acampar depois de obter uma licença do município e pareceres positivos do delegado de saúde e do comandante da GNR/PSP.

A pernoite em tenda ou bivaque durante actividades de montanha sempre foi e continuará a ser praticada por caminheiros e montanhistas. Regra geral, estes utilizadores são ambientalmente conscientes e respeitadores do meio em que desenvolvem a sua actividade. No entanto, a falta de enquadramento legal de excepção para a pernoite em tenda ou bivaque ao longo de rotas de longa distância, resulta até na impraticabilidade de utilização de boa parte das nossas Grandes Rotas (oficiais) ou na desobediência civil por parte dos seus utilizadores.

Independentemente dos contornos legais da pernoite na montanha, devemos sempre cumprir com a regra essencial de qualquer actividade ao ar livre: não deixar rasto da nossa passagem. Não façam ruído, não façam fogueiras, não deixem lixo, não danifiquem a vegetação. Para montar a tenda ou instalar o vosso bivaque, escolham locais discretos, afastados das estradas ou qualquer outro acesso de veículos. Apenas montem tendas ao final do dia e levantem o acampamento logo depois do amanhecer.

Pernoitar na montanha é uma decisão pessoal e consciente.

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