Guia Bikepacking
Dicas para Viajar em Bicicleta
Guia Bikepacking | viajar em bicicleta
(quase) tudo o que precisas saber para planear a tua próxima aventura
O bikepacking é uma das formas mais emocionantes de viajar de bicicleta. Une a liberdade do ciclismo com o espírito de aventura do backpacking, permitindo percorrer trilhos remotos e estradas secundárias de forma autónoma. Seja numa gravel, MTB ou até na bicicleta que já tens, o importante é começar por adaptar a viagem ao equipamento disponível e, com o tempo e experiência, irás aprender a seguir o teu caminho. Neste guia, vamos explorar tudo o que precisas para começar ou evoluir no bikepacking.
A Bicicleta Certa: Qual Escolher?
Nos últimos anos, o bikepacking tem crescido em paralelo com a popularidade das bicicletas gravel, o que levou a uma associação natural entre ambos. As gravel são de facto uma excelente escolha pela versatilidade e conforto, mas isso não significa que sejam a única opção. Para terrenos mais técnicos, uma MTB pode ser a melhor alternativa, enquanto bicicletas híbridas podem ser ideais para misturar asfalto e terra batida. No fundo, a melhor bicicleta para começar é aquela que já tens.
A Evolução do Bikepacking
Muito antes de o termo “bikepacking” existir, já se viajava de bicicleta. Chamava-se cicloturismo (ou touring) e utilizava alforges e racks tradicionais. O que o bikepacking trouxe de novo foi a utilização de bolsas fixas diretamente na bicicleta, reduzindo o peso e melhorando a manobrabilidade fora de estrada. Esta inovação impulsionou uma filosofia de minimalismo e eficiência, permitindo explorar caminhos cada vez mais desafiantes.
Com o boom do bikepacking, o mercado respondeu rapidamente com uma avalanche de novos produtos: bolsas específicas, racks minimalistas, bicicletas “bikepacking-ready” e acessórios de todos os tipos. Algumas destas inovações realmente melhoraram a experiência, mas outras apenas seguem tendências comerciais. A chave está em escolher o que realmente faz sentido para cada viagem, equilibrando funcionalidade, durabilidade e custo.
Performance vs. Conforto: Encontrar o Equilíbrio
No bikepacking, há sempre um compromisso entre leveza, fiabilidade e conforto. Equipamento ultraleve pode significar mais performance, mas muitas vezes exige mais manutenção e reduz a durabilidade. O mesmo se aplica às bicicletas, componentes, vestuário e até à alimentação que levamos. O segredo é encontrar o equilíbrio certo para cada tipo de aventura.
Bikepacking em Portugal
O bikepacking está a crescer em Portugal e, embora continue a ser uma atividade de nicho, há cada vez mais ciclistas a explorar esta forma de viajar. A comunidade vai-se encontrando online, como no grupo de Facebook Portugal Bikepacking, e em eventos específicos. Em 2022, realizou-se o primeiro grande evento 100% nacional de ultraciclismo sem suporte em gravel: o Gravel Birds, cuja rota de 750 km pelo Alentejo tive o privilégio de desenhar.
Respeito pela Natureza e Comunidades Locais
Bikepacking é sinónimo de liberdade e aventura, mas também de responsabilidade. Respeita o território, a natureza e as comunidades locais. Sejamos sempre bons embaixadores da nossa comunidade e da humanidade, mesmo quando ninguém está a ver. #LeaveNoTrace
Bicicleta
Qualquer bicicleta pode servir para viajar, mas isso não significa que qualquer bicicleta seja adequada para qualquer tipo de viagem. Uma MTB de suspensão total com pneus de 3″ até pode ser usada numa viagem por estrada, mas certamente não será a opção mais eficiente. Da mesma forma, uma bicicleta de estrada terá sérias limitações em trilhos de montanha. As bicicletas gravel, por serem um compromisso equilibrado entre estrada e fora de estrada, são uma escolha popular para bikepacking. No entanto, há muitas outras opções: MTBs (26″, 27.5″ ou 29″), fatbikes, semi-fat, hardtails, rígidas, híbridas, step-through ou até single speed. A escolha depende do gosto pessoal, da bicicleta disponível e do tipo de terreno a percorrer. Até as e-bikes estão a tornar-se uma excelente opção para viagens de longa distância.
Se estiveres à procura de uma nova bicicleta e o bikepacking for uma das tuas prioridades, há já vários modelos no mercado concebidos especificamente para viajar. As principais características a ter em conta são versatilidade, fiabilidade e conforto para passar longas horas a pedalar. Pequenos detalhes podem fazer uma grande diferença, como pontos de fixação para racks e bolsas, geometria confortável, passagem de cabos interna, dínamo no cubo para carregamento de dispositivos e compatibilidade com pneus largos para maior aderência e conforto. Por exemplo, a minha Riverside Touring 920 vem equipada com múltiplos pontos de fixação, um guiador com drops amplos para melhor ergonomia, dínamo no cubo dianteiro e espaço para pneus até 2.4″.
Independentemente do tipo de bicicleta, se o objetivo for viajar sem pressas, será preferível evitar modelos ultraleves, com geometria agressiva ou componentes mais frágeis, que podem falhar nos locais mais remotos. No entanto, se o desafio for competir num evento de ultraciclismo, então uma bicicleta leve em carbono pode ser uma vantagem.
Transmissão: O Que Considerar?
Uma transmissão com uma ampla amplitude de andamentos pode ser essencial para diferentes tipos de terreno. O mais importante é garantir que tens uma relação suficientemente “leve” para enfrentar subidas íngremes carregado com todo o equipamento. O eterno debate entre monoprato (simplicidade e menor manutenção) e transmissão de múltiplas coroas (maior amplitude e facilidade em subidas) dificilmente terá um consenso, pois ambas têm vantagens. Alternativamente, existem sistemas fechados como os Pinion ou Rohloff, que oferecem extrema durabilidade e baixa manutenção, especialmente quando combinados com uma correia em vez de corrente.
Materiais do Quadro: Qual Escolher?
O aço continua a ser um clássico nas bicicletas de viagem pela sua resistência e facilidade de reparação. O titânio, por outro lado, combina durabilidade com leveza, sendo uma opção mais exclusiva. Mas se procuras algo verdadeiramente único, podes sempre recorrer a algum fabricante artesanal e mandar construir um quadro à tua medida!
Bagagem: Como Viajar Leve e Bem Equipado
“Na nossa bagagem carregamos os nossos medos.” Esta frase resume bem o dilema de quem viaja em autonomia, seja a pé ou de bicicleta. Quanto maior a confiança e a experiência, menos peso se tende a carregar. No entanto, mesmo com a intenção de viajar leve, a tendência natural é levar mais do que o necessário.
Um dos princípios fundamentais da organização de bagagem é que quanto mais espaço disponível, mais se acaba por preencher. Para evitar excessos, a melhor abordagem é definir primeiro a lista de equipamento essencial e só depois escolher os sacos e o sistema de transporte adequado. Assim, evita-se partir logo com o maior conjunto de alforges ou sacos de bikepacking, garantindo que apenas se leva o indispensável.
Erros Comuns e Como Evitá-los
Entre os erros mais frequentes está o uso de mochilas às costas durante viagens de bicicleta. O peso deve estar na bicicleta e não no ciclista, de forma a melhorar o equilíbrio e reduzir o desgaste físico. O excesso de carga, a má distribuição do peso e a utilização de suportes inadequados são outros problemas comuns, especialmente em quem inicia este tipo de viagens sem uma preparação prévia.
Os alforges, apesar de menos utilizados no bikepacking moderno, continuam a ser uma opção válida, especialmente quando se privilegia maior capacidade de carga e melhor estabilidade estrutural. Uma alternativa interessante é a utilização de alforges de menor dimensão ou combiná-los com outros sistemas de transporte, de forma a distribuir melhor o peso pela bicicleta.
Distribuição Inteligente da Carga
A escolha e disposição da bagagem devem seguir um critério técnico para garantir estabilidade e eficiência. A carga deve ser distribuída de forma equilibrada entre a frente e a traseira da bicicleta, com os itens mais pesados posicionados o mais baixo possível para melhorar o centro de gravidade.
Os principais sistemas de transporte incluem:
Sacos de guiador – Ideais para itens leves e volumosos, como saco-cama ou roupa.
Sacos de forqueta – Permitem carregar equipamento adicional sem comprometer a estabilidade da bicicleta.
Sacos de quadro – Uma das melhores opções para objetos pesados, devido à sua posição central na bicicleta.
Sacos de selim – Convenientes, mas devem ser usados com moderação, pois afetam o equilíbrio e dificultam a montagem e desmontagem da bicicleta.
Porta-bagagens traseiro – Útil para transportar mais volume de forma estável, sendo uma boa alternativa ao saco de selim.
O uso de suportes rígidos de carga, como grades de bidon para volumes maiores, pode ser uma solução eficiente para transportar água ou equipamento adicional.
ÓXIDO – Soluções Feitas à Mão em Portugal
Para quem procura sacos e bolsas feitos à medida, existe uma opção nacional: a ÓXIDO. Feitos à mão por mim, os sacos ÓXIDO são desenvolvidos especificamente para responder às exigências das viagens de bikepacking, combinando resistência, funcionalidade e um design personalizável. Cada peça é ajustada às necessidades do utilizador e da bicicleta, garantindo um encaixe perfeito e a melhor distribuição de carga.
O material robusto e as costuras reforçadas garantem elevada durabilidade e resistência à água, permitindo enfrentar qualquer tipo de terreno ou condições meteorológicas adversas. Além disso, cada solução pode ser ajustada conforme o tipo de viagem, seja para expedições longas ou aventuras mais curtas.
Impermeabilidade e Organização da Bagagem
Mesmo que os sacos de bikepacking sejam impermeáveis, é recomendável utilizar sacos estanques internos para organizar melhor os itens e proporcionar proteção extra contra chuva, lama e pó. Separar eletrónica, roupa e comida em diferentes compartimentos facilita o acesso e evita surpresas desagradáveis.
As fitas de fixação são essenciais para segurar cargas adicionais. Fitas de velcro funcionam bem para ajustes rápidos, enquanto as fitas elásticas de alta resistência oferecem maior segurança no transporte de volumes maiores.
Conforto e Praticidade na Viagem
Além da organização da bagagem na bicicleta, é importante considerar pequenos detalhes que fazem a diferença no conforto durante a viagem. O uso de um sistema de hidratação prático, como uma bolsa de água acessível, facilita a hidratação contínua sem necessidade de parar.
Outra solução útil é levar um saco de transporte dobrável para compras de supermercado ou transporte temporário de itens adicionais. Pequenos ajustes como estes podem melhorar significativamente a experiência da viagem, reduzindo o esforço e aumentando a eficiência na gestão da bagagem.
Viajar com a bicicleta bem equilibrada e com o mínimo essencial não só melhora o desempenho em andamento, como também torna toda a experiência mais confortável e prazerosa. O segredo está no planeamento criterioso e na escolha das soluções certas para cada tipo de percurso e aventura.
Navegação
Longe vão os tempos das cartas em papel, das bússolas e dos azimutes. Hoje, basta descarregar um track da internet, carregá-lo no telemóvel e seguir a linha colorida até ao destino. Pelo menos enquanto houver bateria, o ecrã não se partir ou a porta USB não apanhar água e deixar de carregar.
Os telemóveis são uma excelente ferramenta para navegação, mas têm limitações. Além disso, em territórios mais remotos ou de maior risco, o telemóvel deve ser salvaguardado para situações de emergência.
Telemóvel vs. GPS Dedicado
Atualmente, a usabilidade do telemóvel supera a dos aparelhos GPS dedicados para navegação. Assim, em percursos curtos ou em zonas familiares, o telemóvel é geralmente suficiente. No entanto, em percursos longos ou quando é necessária maior autonomia, um GPS dedicado torna-se a melhor opção para navegação primária, reservando o telemóvel para consulta de mapas ou ajustes de rota.
Para fixar o telemóvel à bicicleta, a escolha do suporte é essencial. Deve ser um sistema robusto e seguro, que mantenha o dispositivo firme mesmo em terreno irregular. A resistência à água e ao impacto são fatores a ter em conta.
Como a navegação ativa consome bastante bateria, uma solução prática é transportar um power bank num top tube bag, mantendo o dispositivo carregado. A capacidade do power bank deve ser ajustada à duração da atividade, garantindo sempre uma margem extra de carga.
GPS Dedicado para Ciclismo e Integração com Apps
Os dispositivos GPS dedicados para ciclismo oferecem maior autonomia e resistência às condições adversas. São especialmente úteis em percursos longos, onde a gestão de bateria do telemóvel pode ser um problema.
Os principais benefícios incluem:
Maior autonomia de bateria, permitindo vários dias de navegação sem necessidade de recarga.
Resistência à água e impactos, garantindo durabilidade em condições exigentes.
Precisão na navegação, com sensores dedicados e melhor receção de sinal satélite.
No entanto, a interface e a usabilidade destes dispositivos continuam a ser limitadas quando comparadas com um smartphone. A melhor abordagem é a integração entre ambos: planear a rota no laptopt ou telemóvel e carregá-la no GPS dedicado para navegação.
Apps para Navegação no Smartphone
Há diversas aplicações móveis para planeamento e navegação, cada uma com vantagens e desvantagens. Algumas destacam-se na criação de rotas, outras na navegação em tempo real ou no registo de atividades.
Atualmente, utilizo o Ride With GPS, que considero uma das melhores ferramentas para navegação e planeamento de percursos. As principais vantagens desta plataforma incluem:
Facilidade na criação e edição de rotas, com análise detalhada do perfil altimétrico.
Possibilidade de descarregar mapas offline, garantindo navegação mesmo sem rede.
Integração com dispositivos GPS, permitindo carregar percursos diretamente em aparelhos dedicados.
Opção de adicionar notas e pontos de interesse, tornando o planeamento mais eficiente.
Aderir ao Clube Portugal Outdoor no Ride With GPS
No Portugal Outdoor, tenho uma conta de clube no Ride With GPS, que permite aos membros acederem gratuitamente a funcionalidades premium da plataforma. Ao aderir ao clube, terás acesso a:
Navegação offline gratuita nas rotas do clube
Ferramentas avançadas de planeamento e análise de percursos
Acesso exclusivo a rotas recomendadas e testadas
A adesão ao clube é simples e gratuita. Basta seguir este link [Portugal Outdoor no RWGPS], criar uma conta (se ainda não tiveres uma) e juntar-te ao clube para usufruir destas vantagens.
As rotas que partilho no Portugal Outdoor estão disponíveis na plataforma Ride With GPS, prontas para visualização, download e navegação.
Energia em Viagem: Gestão Eficiente para Aventuras Sustentadas
Hoje em dia, quase todos nós dependemos de equipamentos eletrónicos quando viajamos de bicicleta: telemóvel, GPS, luzes, câmara, lanterna frontal, entre outros. Há exceções — os puristas mais “old school” que viajam apenas com bússola e instinto — mas a verdade é que a maioria dos ciclistas modernos precisa de garantir autonomia energética ao longo do percurso.
Gestão de Consumos e Cargas
Dependendo do destino e da duração da viagem, é essencial planear como manter os dispositivos carregados. Em Portugal, mesmo em zonas mais isoladas, como o interior de Trás-os-Montes ou da Serra da Estrela, raramente estamos a mais de algumas horas de uma tomada elétrica. Com uma boa gestão dos consumos, powerbanks adequados e paragens estratégicas, é possível manter a autonomia energética sem necessidade de recorrer a painéis solares.
Levo sempre uma tomada múltipla compacta com portas USB de carregamento rápido, o que permite carregar vários dispositivos ao mesmo tempo — ideal durante uma refeição ou pausa num café. Com os cabos certos (USB-C, micro-USB, Lightning), posso manter todos os dispositivos a funcionar até ao ponto de carregamento seguinte.
Powerbanks: Como Escolher e Calcular a Necessidade
Um aspeto importante a considerar é que os powerbanks não transferem 100% da sua capacidade para os dispositivos. A eficiência média ronda os 70%. Ou seja, um powerbank de 10.000 mAh fornece, na prática, cerca de 7.000 mAh. Para um telemóvel com uma bateria de 3.500 mAh, isso equivale a duas cargas completas. A qualidade dos powerbanks varia bastante, quer na capacidade real, quer na velocidade de carga. É importante escolher modelos fiáveis, com proteção contra sobrecarga e temperaturas extremas.
No inverno, as baterias descarregam mais rapidamente. Por isso, protejo sempre os dispositivos do frio — mantenho o telemóvel num bolso interior e os powerbanks junto ao corpo. Durante pernoitas em bivaque ou tenda, guardo todos os eletrónicos dentro do saco-cama, ao nível dos pés.
Outra dica essencial: em zonas remotas e sem rede, os telemóveis consomem mais energia por estarem constantemente à procura de sinal. A solução é simples — usar o modo de voo ou desligar o aparelho quando não é necessário.
Dínamo: Energia em Movimento
A minha bicicleta vem equipada com um dínamo no cubo da roda dianteira, que permite gerar energia enquanto pedalo. Em teoria, é uma solução de autonomia total. Na prática, a velocidade de carga é baixa e a corrente gerada é instável. Por isso, não é recomendável carregar dispositivos sensíveis (como o telemóvel) diretamente a partir do dínamo. A melhor opção é usar um powerbank como buffer — acumula energia enquanto pedalas e permite carregar mais tarde com estabilidade.
A verdadeira vantagem do dínamo está na alimentação contínua das luzes, especialmente em viagens de longa duração ou com pouca luz natural. Com um sistema bem montado, é possível ter iluminação permanente sem depender de baterias externas.
E-Bikepacking: Planeamento é a Chave
Viajar com bicicletas elétricas em autonomia total ainda tem limitações, sobretudo em zonas remotas. No entanto, em território mais acessível, já é possível realizar aventuras interessantes com e-bikes. Os motores são cada vez mais eficientes, e muitas bicicletas permitem baterias suplementares para aumentar a autonomia.
O planeamento é crucial: prever locais de carregamento, otimizar consumos e utilizar pausas estratégicas para colocar a bateria à carga. Muitas vezes, uma pausa para café ou almoço chega para recuperar dezenas de quilómetros de autonomia. Com duas cargas parciais por dia, é possível manter assistência elétrica por vários dias.
A energia de uma carga completa é quase insignificante em termos de custo — cerca de 7 cêntimos para 500 Wh — e, com uma boa dose de simpatia, será raro alguém recusar uma ficha para recarregar. Levar uma extensão ou uma ficha múltipla pode facilitar bastante o processo.
Reparação e Manutenção em Viagem
Quando se viaja de bicicleta em autonomia, é essencial estar preparado para resolver pequenas avarias. Os imprevistos irão acontecer — e, como dita a Lei de Murphy, sempre no pior momento e no local menos conveniente.
Furos e Problemas nos Pneus
Os pneus tubeless são, sem dúvida, uma das melhores inovações no ciclismo moderno, mas não são infalíveis. Antes de qualquer viagem longa, deve-se renovar o líquido selante e levar uma pequena quantidade extra para eventuais reposições.
Furos pequenos tendem a selar sozinhos, mas pode ser necessário ajudar o selante a actuar, por exemplo, posicionando o furo para baixo ou tapando com o dedo durante alguns segundos. Para furos maiores, convém levar tiras de reparação (“bacon strips”), remendos internos, linha e agulha (para cortes no pneu), cola forte ou, em último caso, recorrer a uma câmara de ar.
Importante: se tiveres de montar uma câmara, leva também remendos autocolantes — porque é provável que também ela venha a furar.
Ferramentas Essenciais
Um kit básico de reparação deve incluir:
Bomba de ar fiável — evita modelos demasiado pequenos que demoram demasiado tempo a encher.
Multitool completa, com:
Chaves Allen e Torx compatíveis com a bicicleta
Chave de fendas/Phillips
Chave de raios
Descravador de corrente
Lubrificante de corrente — óleo ou cera, conforme as condições do percurso
Ferramentas adicionais recomendadas:
Alicate multifunções pequeno
Desmontas (para pneus mais teimosos)
Alicate para abrir elos rápidos de corrente
Consumíveis e Extras Úteis
Além das ferramentas, levo sempre alguns consumíveis e acessórios que podem resolver uma variedade de problemas:
Fita americana (enrolada na bomba ou num bidão de ferramentas)
Braçadeiras plásticas (indispensáveis para imprevistos estruturais)
Elos rápidos de corrente (compatíveis com a transmissão)
Fitas de carga extra
Dropout suplente (se aplicável ao modelo da bicicleta)
Pano para limpeza da corrente ou mãos
Adaptador de válvula Presta para Schrader
Válvula tubeless de reserva e selante adicional
Saber Usar é Tão Importante Como Levar
Não basta ter o material — é fundamental saber usá-lo. Dedica algum tempo a treinar pequenas reparações em casa: trocar uma câmara, remendar um rasgão no pneu, substituir um elo da corrente ou ajustar um travão. Essa prática pode fazer a diferença entre um simples contratempo e o fim antecipado de uma viagem.
Preparar bem o kit de reparação é garantir que a tua aventura continua, mesmo quando o inesperado acontece.
Pernoita em Bikepacking
Numa viagem de vários dias em bicicleta, a pernoita faz parte da experiência. Seja em alojamento tradicional ou a dormir ao ar livre, há vantagens e desafios em cada opção. A escolha dependerá do tipo de viagem, dos objetivos, do orçamento e do grau de autonomia que procuras.
Alojamentos: Conforto e Logística
Para muitos viajantes, o alojamento é a primeira escolha — e, em muitos casos, a mais prática. No entanto, mesmo ao optar por dormir sob um teto, há alguns cuidados a ter:
Nem todos os alojamentos estão preparados para receber bicicletas.
A segurança da bicicleta nem sempre está garantida, mesmo quando nos dizem que sim.
Sujidade, espaço para armazenamento e disponibilidade de água podem ser fatores limitantes.
Sempre que procuro alojamento, costumo contactar diretamente por telefone, para explicar que chego de bicicleta e preciso de um local seguro para a guardar. Ainda assim, já tive surpresas: desde “sítios seguros” que afinal são a rua em frente ao hotel, até recusas por a bicicleta estar suja.
Começam a surgir alojamentos com sensibilidade para o cicloturismo — alguns até certificados com o selo Bikotel, que garante condições mínimas para quem viaja de bicicleta. No entanto, essa rede ainda é limitada e, por vezes, a certificação pouco mais é do que um rótulo.
Pernoita Livre: Liberdade (Quase) Total
Para muitos, o verdadeiro espírito do bikepacking passa pela pernoita ao ar livre: tenda, saco de bivaque ou apenas um banco de jardim. A liberdade de montar abrigo onde nos sentimos bem é um dos grandes atrativos deste modo de viajar.
Em zonas remotas, opto quase sempre por levar tenda. Já em percursos com mais estruturas (refúgios, lavadouros, paragens, casas de banho públicas), prefiro um setup minimalista, com saco-cama e bivaque.
Montar tenda ao escurecer e desmontar ao amanhecer é uma boa prática para passar despercebido e evitar conflitos.
Curiosamente, uma abordagem mais social também funciona: parar num café local, meter conversa e — com alguma sorte e simpatia — aparece sempre alguém que nos oferece um palheiro, uma garagem ou um abrigo improvisado para a noite.
Equipamento Essencial para Dormir Bem
Saco-cama: de penas (mais leve e compacto) ou fibras sintéticas (mais resistente à humidade).
Colchonete: espuma (mais resistente) ou insuflável (mais confortável e compacto). As insufláveis exigem cuidado no terreno para evitar furos.
Tenda: leve, compacta, preferencialmente autoportante, discreta e com espaço no avançado para guardar bagagem. As varetas curtas facilitam o transporte em bikepacking.
Outros extras úteis: almofada insuflável, lençol de seda ou lã merino, saco estanque com roupa para servir de almofada, e um pedaço de fita americana para reparações rápidas.
Lembra-te: o que poupas em peso ao deixar a tenda pode ser compensado por equipamento extra (tarp, bivaque, saco mais quente), por isso nem sempre significa viajar mais leve.
Onde Dormir (Discretamente)
O interior de Portugal oferece várias opções discretas e abrigadas para dormir em modo bivaque:
Lavadouros públicos – com tecto, água e chão limpo, muitas vezes na periferia das aldeias.
Casas de banho públicas – algumas com balneário e água quente.
Paragens de autocarro – úteis em caso de emergência, mas mais expostas.
A regra de ouro é deixar o lugar como o encontraste ou melhor. O respeito pelo território e pelas comunidades locais é essencial para manter esta liberdade.
A Legalidade da Pernoita Livre
Em Portugal, não existe uma distinção legal clara entre acampamento selvagem e bivaque — ambos são tecnicamente proibidos fora dos locais autorizados. No entanto, a prática é largamente tolerada, sobretudo em zonas pouco sensíveis do ponto de vista ecológico e fora dos hotspots turísticos.
Na maioria dos países europeus já existem exceções reguladas, especialmente em áreas protegidas, que permitem o bivaque discreto desde que se respeitem regras básicas:
Montar ao anoitecer e desmontar ao amanhecer
Ser discreto e respeitador
Não deixar qualquer vestígio
Enquanto a legislação nacional não evolui para um enquadramento mais realista das atividades outdoor, a melhor estratégia continua a ser: baixo perfil, bom senso e zero impacto.
Vestuário
Nunca fui grande adepto das roupas “clássicas” de ciclismo. A pedalar no dia-a-dia raramente uso jerseys e apenas uso calções de lycra por baixo dos calções “normais” e, para viajar, acho que ainda faz mais sentido optar pelo conforto e look casual das roupas outdoor mais genéricas.
Tal como para qualquer outra actividade outdoor, devemos optar por roupas em tecido sintético ou em lã de merino (nunca em algodão) por terem melhor performance em todos os climas: mais leves, absorvem menos água, secam mais rápido, evacuam melhor a transpiração, mantêm capacidade térmica mesmo molhadas. A lã de merino tem ainda a grande vantagem de cheirar “menos mal” ao fim de vários dias de uso, o que em viagem pode fazer toda a diferença!
De forma geral, o vestuário para viajar em bicicleta segue o princípio genérico das 3 camadas: camada interior, camada de aquecimento e camada impermeável. Com um bom planeamento do vestuário a levar, podemos fazer múltiplas combinações conforme as condições meteorológicas e reduzir a quantidade de roupa a um mínimo essencial.
Para além da roupa “para pedalar”, temos também que contar com o que vestir quando não estamos na bicicleta ou para dormir. Dependendo do tipo ou da duração da viagem, podemos ter que levar mais desta roupa casual ou nem sequer levar nenhuma.
Por uma questão de conforto e segurança, levo sempre comigo (pelo menos) um casaco impermeável. No Verão, se o risco de precipitação for nulo ou muito baixo, levo apenas um corta-vento muito leve e compacto. No Inverno ou em ambiente de montanha já será conveniente não facilitar e levar um bom casaco impermeável. Mesmo quando não chove, o casaco impermeável funciona como camada extra em noites mais frescas ou para pernoitar ao relento.
Para os finais de dia (ou para dormir com conforto extra) levo sempre colete ou casaco de penas/fibras ocas. O enchimento de penas é mais leve e compressível, mas as fibras ocas são melhor opção com tempo húmido. A relação peso/volume/capacidade de aquecimento neste tipo de roupa é imbatível. A fita de pescoço anda também sempre comigo, mesmo durante o Verão.
E o calçado? Clipless ou “normal”, o importante é que sejam confortáveis a pedalar ou a caminhar. Sempre usei na bicicleta sapatos de encaixe, mas ultimamente tenho andado a reconsiderar as vantagens e desvantagens, pois na realidade o ganho de performance é-me bastante indiferente e o conforto de usar sapatos normais em pedais de plataforma está a começar a ganhar pontos. Para usar ao fim do dia, costumo trazer uns crocs, que são bastante práticos e versáteis.
Alimentação
A alimentação em viagem depende muito do gosto de cada um, mas principalmente da duração da viagem. Em viagens curtas podemos planear e levar de casa (quase) tudo o que vamos precisar, mas em viagens mais longas vamos principalmente depender do que vamos encontrando para nos reabastecer pelo caminho.
Em viagens mais curtas, ou sempre que o território é mais remoto e implica maior grau de autonomia, faço uma estimativa do que preciso para cada dia e divido e organizo tudo em sacos ziploc. Não dispenso o café pela manhã, nem uma refeição quente ao jantar, por isso levo sempre comigo o kit de cozinha com fogão (a gás ou álcool), mini tacho, taça e spork.
As refeições quentes que faço tendem a ser bastante básicas. Já houve tempo em que fazia coisas mais elaboradas, mas hoje em dia prefiro a simplicidade dos noodles Koka ou couscous com um enlatado de qualquer coisa ou, mais simples ainda, das refeições prontas desidratadas. Não é que esta comida desidratada seja o melhor pitéu do mundo, mas basta juntar água quente e esperar meia dúzia de minutos para ter uma refeição minimamente completa.
Sopas instantâneas e chás são também bastante bem-vindos, principalmente antes de ir dormir, pois ajudam a repor a hidratação perdida durante o dia e dar aquele boost de calor para ir dormir quentinho.
Durante o dia, prefiro ir comendo coisas leves em vez de fazer refeições mais completas: frutos secos, cubos de marmelada, bolachas, tostas, marinheiras, fruta fresca, barras de cereais, ovos cozidos, queijo, enchidos. Com o esforço e o passar dos dias, torna-se cada vez mais difícil termos apetite para comer alguns tipos de alimentos e a variedade de opções pode ajudar a combater essa dificuldade.
Como a performance não é minimamente a minha preocupação, não contabilizo calorias consumidas e nem considero esse critério no planeamento da alimentação. No entanto, à falta desse planeamento energético, acabo por levar (quase) sempre comida a mais.
Existem no mercado várias marcas que prometem “refeições completas” em pó e de preparação instantânea. Há uns anos atrás experimentei uma coisa dessas (não me lembro que marca) e até achei piada, pois pareceu-me cumprir com o prometido: a preparação era bastante simples (juntar o pó à água e agitar), a sensação de fome ficou saciada e senti-me “alimentado” como se tivesse comido comida normal. Comecei recentemente a testar a Huel Powder (apenas ainda provei os sabores de baunilha e chocolate) e não posso dizer que tenha gostado do sabor, mas a solução é tão prática para actividades outdoor em autonomia que vou continuar a tapar o nariz e a emborcar aquela nhaca. Se alguém tiver experiência neste tipo de alimentação (e recomendações de alternativas menos horríveis) que me envie o seu feedback!
Água
Ao viajar de bicicleta em autonomia, a disponibilidade de água é sempre um dos tópicos que exige mais atenção e planeamento. Por um lado, não devemos correr o risco de ficar sem água no meio de nada e, por outro, queremos sempre evitar carregar desnecessariamente demasiada água.
Sempre preferi usar Camelbak a bidons, mas sempre que preciso transportar mais água (de modo a reduzir o peso nas costas) uso as duas coisas. Entre o depósito da mochila e uns quantos bidons fixos na bicicleta, em condições normais, terei água para pedalar muitos kms, cozinhar o jantar, lavar os dentes e os tachos, e ainda sobrar alguma para continuar a pedalar no dia seguinte até ao próximo local onde possa reabastecer.
Para levar ainda mais água extra, existem depósitos específicos para colocar dentro da bolsa de quadro ou podemos simplesmente levar garrafas de água de 1.5L em suportes do tipo cargo cage.
Em termos de tratamento de água recolhida em linhas de água, lagos ou fontes duvidosas, a forma mais segura de eliminar situações de risco será sempre a fervura durante vários minutos. No entanto, sempre que o risco de contaminação das águas seja reduzido, a forma mais prática e rápida é usar pastilhas desinfectantes ou um sistema de filtração. Depois de vários anos a usar pastilhas desinfectantes, (re)comecei recentemente a usar filtros e não penso voltar atrás. Tenho um Katadyn BeFree e uma garrafa filtrante da Decathlon, que usam exactamente o mesmo sistema de filtragem com fibras ocas e funcionam igualmente bastante bem. No entanto, continuo a trazer sempre comigo umas quantas pastilhas para usar em conjunto em caso de águas mais duvidosas.
Em pernoitas em tenda ou bivaque durante o Inverno, não deixem as garrafas de água (ou sacos da mochilas de hidratação) expostas ao frio, pois poderão congelar e ficam sem água para beber até ela voltar a derreter. Sempre que as temperaturas se prevejam descer próximas ou abaixo de zero, o melhor é enfiar pelo menos uma das garrafas dentro do saco-cama. Durante o dia também poderá acontecer (em particular no tubo do Camelbak), mas apenas em ambientes muito extremos.
Conforto
Pedalar durante horas a fio durante dias, semanas ou meses implica alguns cuidados especiais para garantir o nosso conforto. Com o tempo e a experiência, cada um irá perceber melhor as suas necessidades, mas aqui ficam algumas dicas.
Suspensão ou forqueta rígida? Viajantes de longo curso e gravel bikepackers optam frequentemente por não usar suspensão. Os motivos prendem-se normalmente com a fiabilidade e necessidade de manutenção regular das suspensões, mas para muitos é também uma questão de “purismo”. A suspensão “filtra” demasiado o terreno e impede-nos uma conexão “mais pura” com o chão que pisamos: pode parecer meio absurdo, mas até faz bastante sentido. Mas é apenas uma opção e não uma regra rígida, sendo que cada vez mais gravelistas e bikepackers vão começando a usar suspensão nas bicicletas. Já existem no mercado várias opções “gravel specific”, de curso reduzido e até soluções mais alternativas como as suspensões da Lauf que necessitam de zero manutenção.
Uma alternativa ao uso de suspensão (na forqueta, isto é), mas que nos permite ter um conforto acrescido, é o uso de sistemas de amortecimento no espigão de selim ou no avanço da bicicleta. Eu comecei por usar o ShockStop Suspension Seatpost da Redshift e rapidamente me tornei fã desta solução. Entretanto também comecei a usar o avanço com amortecimento (ShockStop Suspention Stem) e o novo guiador sobreelevado da Redshift (Top Shelf Handlebar).
Estas soluções da Redshift, apesar de não serem assim tão low cost, acabam por ser bastante mais económicas que uma suspensão específica para gravel e, em conjunto aumentam significativamente o nosso conforto na bicicleta ao filtrar grande parte das irregularidades do piso. Sem dúvida, o melhor upgrade que fiz para melhorar o meu conforto na bicicleta. Se ficaram interessados nestas soluções da Redshift, usem o código PORTUGALOUTDOOR e aproveitem o desconto de 15% em qualquer equipamento na loja online da Redshift.
Mas algumas soluções simples e económicas são muitas vezes tão ou mais eficientes para aumentar o nosso conforto. Por exemplo, basta baixar um pouco a pressão dos pneus para conseguirmos aumentar de forma dramática o conforto na bicicleta. Os sapatos de ciclismo, com encaixes e solas rígidas para maior eficiência, podem ser óptimos a transferir toda a potência para os pedais, mas nada bate o conforto de usar umas simples sapatilhas e pedais de plataforma. Em guiadores dropbar há quem não dispense as aerobars, mas é coisa que nunca usei para poder dar o meu feedback. Os bar-ends (“cornos”), que foram tão usados nos anos 90′, podem dar um excepcional descanso aos braços e às costas para quem usa guiadores rectos. Punhos de silicone como os ESI Grips praticamente dispensam o uso de luvas e absorvem todas aquelas microvibrações da gravilha.
Mas mesmo com todos esses truques e upgrades, o nosso rabo vai sempre sofrer bastante com o passar dos dias e há que estar preparado para essas horas difíceis. Não poupem (demasiado) nuns bons calções de ciclismo e usem um bom creme para amaciar a carneira, mas depois, ao fim do dia, convém ter à mão algum creme reparador para ajudar à recuperação das assaduras e macerações da pele. Já me deram muitos conselhos e segui vários, mas o Halibut e o Cicalfate foram os que me deram melhores resultados.
Segurança
Em Portugal não existem territórios verdadeiramente remotos, as montanhas são modestas e o clima é sempre mais ou menos ameno, mas existem sempre riscos associados às actividades outdoor e é sempre mais sensato ter as devidas precauções para evitar situações menos agradáveis. Bom planeamento, respeito pelo meio onde estamos e ter noção dos nossos limites nunca fez mal a ninguém.
Um dos cuidados mais básicos a ter é conhecer com alguma antecipação as previsões meteorológicas. Mesmo em pleno Verão podemos ser surpreendidos por alguma tempestade ou trovoada e (acreditem!) as coisas podem ficar mesmo assustadoras se não tomarmos medidas para minimizar os riscos.
Um bom planeamento não é só conhecer a nossa rota, mas também ter um plano B (ou C) para qualquer eventualidade. Estudar o território para onde vamos e os seus principais riscos ou condicionantes: se há água disponível, se há localidades onde repor mantimentos, se os trilhos estão bem mantidos e transitáveis, qual o tempo estimado para chegar de A a B, qual o feedback de outros visitantes, se existem outros riscos objectivos para que devamos estar atentos.
Praticar actividades outdoor a solo pode ser uma experiência bastante emersiva e enriquecedora, mas os riscos de estar sozinho são sempre bastante superiores. Se fores sozinho, duplica os teus cuidados de planeamento e, de preferência, informa alguém previamente do que vais fazer ou de alguma forma vai partilhando a tua localização. Quando há rede de telemóvel é fácil partilhar a nossa localização através de apps (Strava, Garmin, Google Maps, Whatsapp, etc), mas para zonas mais remotas (mesmo em Portugal) existem soluções de tracking e comunicação por satélite (Spot, Garmin inReach).
Dependendo do tipo e do risco da actividade, assim deverá ser o nosso kit de primeiros socorros. Eu trago sempre comigo um mini kit com tudo o que considero essencial para resolver situações mais simples: pensos rápidos variados, rolo de gaze, compressas, luvas de latex, saquetas de álcool gel, pinça, pastilhas desinfectantes para água, meia dúzia de comprimidos de ibuprofeno e manta térmica. Não dá para resolver uma fractura exposta, mas todos os itens que trago já se revelaram bastante úteis (a pinça é óptima para sacar espinhos das mãos ou dos pneus antes de meter uma nova câmara de ar). Além destes essenciais, cada um deverá juntar outras coisas que julgue necessárias, tal como medicação pessoal.
Um ponto importante para nossa segurança é assumir sempre que, por algum motivo, o percurso pode ser mais difícil ou demorar mais tempo do que previsto, ou que as condições meteorológicas sofram algum tipo de agravamento. Para fazer frente a estes imprevistos nada como fazer as contas por cima à comida e água que levamos, a ter alguma roupa extra, a ter SEMPRE um casaco impermeável (mesmo no verão) e a contar com alguma energia extra no powerbank para algum contacto de emergência. E obviamente que devemos sempre usar capacete, luzes à frente e atrás sempre que andarmos na estrada com condições de visibilidade reduzidas, colete reflector ou roupa de elevada visibilidade, etc, etc.
Outro aspecto a considerar é a segurança da nossa bicicleta quando estamos a dormir ou a temos que deixar à porta do supermercado, do café ou do WC público. Normalmente não faz sentido andar com um U-lock de 4kg atrás, mas pelo menos alguma coisa que impeça o gatuno ocasional de nos levar a nossa mais que tudo. Eu uso um cabo de aço revestido com 3mm e 3 metros de comprimento, que em conjunto com um pequeno cadeado de combinação me dá a tranquilidade suficiente para ir às compras ou dormir profundamente no banco de jardim. O comprimento do cabo permite fixar várias bicicletas, passar à volta de um poste ou árvore, ou até prender uma das pontas do cabo à nossa tenda (ou à almofada como faz um amigo meu!).
Em termos fauna selvagem que nos possa colocar em risco, Portugal é também um território bastante pacífico. Existem por cá lobos, víboras, escorpiões, tarântulas e até viúvas-negras, mas o risco de ataque (ou sequer de encontro) é tão baixo que na prática quase pode ser negligenciado (ver lista de espécies potencialmente perigosas em Portugal) . Maior preocupação devemos ter com apanhar alguma carraça ou ser mordido pelo cão de um pastor. As actividades cinegéticas podem também ser um factor de risco, pelo que deveremos ter precaução redobrada em zonas de caça durante o período cinegético, usando roupas bem visíveis e anunciando a nossa presença para não sermos confundidos com alguma perdiz.
Higiene
Viajar em autonomia implica (normalmente) algumas concessões em termos de higiene. Nem sempre existe água disponível, as baixas temperaturas são pouco convidativas a um banho de água fria ou o cansaço não nos permite o discernimento de cumprir essas rotinas de higiene.
Quando há água disponível, uso detergente biodegradável multiusos. Serve um pouco para tudo, desde lavar as mãos, a cara, o corpo e o cabelo, mas também para lavar a loiça e a roupa. Na natureza, em particular em ambientes de montanha, é bastante importante que não se usem detergentes “normais” pois estes podem causar graves desequilíbrios em ecossistemas mais sensíveis.
Para lavar os dentes, por uma questão de minimalismo, uso escova e pasta de dentes em formato de viagem. Pode parecer que não, mas todas as gramas contam.
À falta de água, uma das soluções mais simples (e que já uso há bastantes anos) é usar toalhitas humedecidas para manter a higiene mais básica. Existem embalagens de viagem de vários tamanhos, práticas de usar e transportar, e servem um pouco para tudo: “lavar” as mãos, limpar o corpo e a cara ao fim do dia ou para uma melhor higiene depois de fazermos o “número dois”. Uso sempre toalhitas biodegradáveis (das que na embalagem diz que podem ser descartáveis na sanita) para “as situações” em que precise mesmo de as descartar na natureza, mas opto sempre que possível por as colocar no saco do lixo. Podem ser biodegradáveis, mas são também bastante “biodesagradáveis”.
E por falar em “número dois”, o tema pode parecer simples mas tem muito que se lhe diga e até existe um bestseller que esmiúça o assunto: “How to Shit in the Woods” ou “Cómo Cagar en el Monte” na versão espanhola. Actualmente é fácil encontrar online muita informação sobre o tema, mas quando este livro surgiu em 1989 veio desbravar um tópico importantíssimo e que era praticamente tabu. Livro obrigatório na biblioteca de qualquer explorador ou amante da natureza.
Sempre que possível, alterno as pernoitas em bivaque ou acampada livre com noites em refúgios ou alojamento. Por muito que goste de dormir sob as estrelas, uma noite de vez em quando com banho e lençóis lavados sabe a hotel de 5 estrelas. Além de restabelecermos o corpo e a alma, é bastante útil para recarregar dispositivos e powerbanks.
Mas, mesmo quando estamos no meio de nada e sem acesso a um banho decente durante dias a fio, ter um par de meias lavadas para trocar é um fantástico bálsamo para a alma. Podemos estar imundos, encharcados e desgrenhados, mas com meias lavadas e prontos para continuar a enfrentar o mundo.
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Rotas e Destinos para Bikepacking em Portugal
Para quem está a iniciar-se no mundo do bikepacking, o melhor conselho é simples: começar pequeno. Não é preciso atravessar o mundo para viver uma aventura memorável. As chamadas microaventuras, conceito popularizado por Alastair Humphreys, são ideais para testar equipamento, técnicas e limites pessoais — tudo de forma acessível e com pouco compromisso logístico.
S24O – Aventuras de Uma Noite
Uma das formas mais simples de começar são os overnights, também conhecidos por S24O (Sub-24 Hour Overnighter). A ideia é fazer um passeio de bicicleta (curto ou longo, conforme as pernas) até um local onde se possa passar a noite ao ar livre, e regressar no dia seguinte. É uma excelente forma de experimentar o bivouac ou o uso de equipamento leve, sem compromissos complexos. A logística é simples, encaixa-se numa agenda ocupada e, mesmo que algo corra menos bem, no dia seguinte estamos de volta a casa.
Gravel Birds – Bikepacking no Alentejo Profundo
A Gravel Birds é uma rota e um evento anual de bikepacking autónomo com partida e chegada em Castro Verde, no coração do Baixo Alentejo. O percurso principal, com cerca de 750 km, é uma grande travessia circular que combina estradões abertos, trilhos escondidos, caminhos rurais e troços técnicos, numa viagem desafiante e imersiva pelas paisagens vastas e singulares da região.
Mais do que uma linha no mapa, a Gravel Birds é uma experiência que cruza natureza, isolamento, esforço físico e identidade cultural. O traçado percorre zonas de elevado valor ecológico — nomeadamente a Reserva da Biosfera de Castro Verde — e passa por pequenas aldeias onde o tempo parece correr mais devagar, permitindo ao viajante parar, observar e respirar.
O percurso base pode ser complementado por vários loops opcionais, que adicionam quilometragem e variedade técnica ou paisagística à experiência. Estes loops permitem explorar ainda mais profundamente a região envolvente, proporcionando alternativas para quem quer prolongar a aventura, aumentar o desafio ou simplesmente descobrir mais.
A rota pode ser realizada em autonomia, em qualquer altura do ano, mas também integra um evento anual em formato ultraciclismo sem suporte, aberto a todos os que procuram viver uma verdadeira travessia off-road.
Distância base: ~750 km
Desnível positivo: ~9.000 m
Loops opcionais: +50 a +150 km adicionais
Modalidade: Gravel / MTB / Bikepacking autónomo
Ponto de partida e chegada: Castro Verde
Formato: Percurso permanente + evento anual
A Gravel Birds está disponível para download através do Portugal Outdoor e da plataforma Ride With GPS, com informação complementar, pontos de apoio, recomendações logísticas e possibilidade de adesão ao clube para navegação premium gratuita.
Outras Rotas com Interesse para Bikepacking
Portugal tem vindo a desenvolver lentamente uma rede de rotas mais adequadas ao cicloturismo e ao bikepacking. Algumas destacam-se pelo valor paisagístico, cultural ou pelo simples prazer da travessia:
Grande Rota das Aldeias Históricas – cerca de 600 km a ligar 12 aldeias históricas da Beira Interior.
Caminho Histórico da Rota Vicentina – trilhos do Alentejo ao Algarve, entre interior e costa.
Grande Rota do Côa – vale remoto com forte identidade natural e cultural.
Via Algarviana – excelente opção para travessia sul-norte.
Rota da Terra Fria Transmontana – percursos mais asfaltados, mas com enorme valor paisagístico.
Grande Travessia das Montanhas Mágicas – proposta recente com estrutura turística de apoio.
Muitas destas rotas foram originalmente concebidas para caminhada, mas podem ser adaptadas ao ciclismo, com atenção à navegação e aos tipos de piso.
Portugal Divide – A Liberdade do Traçado Personalizado
A Portugal Divide é um desafio de bikepacking em total autonomia, sem um percurso pré-definido. O objetivo é ligar os quatro extremos geográficos de Portugal Continental, bem como o ponto mais alto e o centro geodésico, seguindo um conjunto de regras e respeitando um código de ética.
É um projeto ideal para quem valoriza o planeamento, a liberdade total de rota e a superação pessoal. A participação pode ser registada no site oficial, e o desafio validado através da submissão do ficheiro GPS.
European Divide Trail – Da Noruega ao Cabo de São Vicente
A European Divide Trail é uma rota de ultra longa distância com cerca de 7.500 km, que liga o norte da Noruega ao sul de Portugal, terminando (ou começando) no Cabo de São Vicente.
Apesar de estar ainda em consolidação, especialmente na parte portuguesa, esta rota já atrai viajantes de todo o mundo e reforça o posicionamento de Portugal como destino de entrada e saída de grandes aventuras transcontinentais.
